sábado, 25 de junho de 2011

mais um, menos outro

Faço um bom trabalho de manter a boca fechada. Pelo menos aqui, e me tacham de quieta, mal-humorada, o diabo à quatro. Ele fala, fala, fala, e a cada pausa destinada à mim penso em deixar escapar, em falar sobre o veneno de sete anos. Não falo - situo minhas mãos no maxilar, boca, queixo. Ela fala, sugere-me uma fé (fé nenhuma me salvou). Ele diz que eu tenho de querer alguma coisa, que vivo demais sem propósito algum (ah, eu tenho um). Algum dos dois diz que preciso dar mais de mim, dar partes de quem sou para que os outros possam se sentir bem. Essa última parte me incomoda um pouco mais do que as outras.

O veneno-de-sete anos deixou pouco para trás; quão idiota eu teria de ser para dar o que quer que fosse, muito menos pedaço meu? Ainda posso correr linhas sobre o meu próprio veneno, ou o veneno dele, ou o veneno do mundo. Tanto faz. Venenos são venenos.
E então... Novamente... Novamente. Eu pensei Nele, com nome, com presença, com o gosto de seus dedos e a textura de seu cabelo. Acho que porque voltei a sonhar (acho que porque tive um daqueles sonhos em que perco o pouco que restou, em todos os sentidos, e acordo sentindo-me velha, velha demais, sábia, sábia demais, tudo demais), ou talvez porque simplesmente pertenço.

De qualquer maneira, não tenho nada para dar. Nada que mereça atenção. Nada que mereçam receber. Não tenho nada intacto, nada de valia, nada de interesse.

(e velha, tentando reatar os retalhos para formar uma imagem que remeta ao que não me sai da cabeça mas não consigo ver, não consigo lembrar, não consigo viver sem saber)

domingo, 19 de junho de 2011

eu não acredito

que é mais um ano que vou passar desejando não ter ano nenhum

mãe

Eu quero cortar e sangrar e arrancar órgão por órgão do meu corpo, eu quero gritar e, acima de tudo, eu quero matá-la. Eu a odeio como a vítima odeia o estuprador, eu a odeio como o rebelde odeia o governo, eu a odeio como o preso odeia o cárcere. Eu quero jogá-la e estraçalhá-la e apagar todos os danos que ela fez aos outros e à mim. Eu quero matá-la, findá-la, tirar de mim todos os venenos que ela injetou (ele não te ama ninguém te ama como eu só eu me esforço por você só eu me importo só eu e meus pais mais ninguém mais ninguém e você não presta você não é nada de bom você não me vale nada você não me trata como eu merecia ser tratada você é um lixo você é uma perda de tempo)e

EU DEVERIA ME AMAR MAS NÃO AMO E A CULPA É SUA A CULPA É TODA SUA E EU QUERO ARRASTAR A LÂMINA DO MEU PULSO ATÉ O MEU CORAÇÃO SÓ PARA NUNCA MAIS, NUNCA MAIS TER QUE LIDAR COM NADA, MAS PRINCIPALMENTE NUNCA MAIS TER DE LIDAR COM VOCÊ EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO EU TE ODEIO

quinta-feira, 16 de junho de 2011

e o ar falta.

A pergunta vai, volta, corre pelos seus pulmões e se entrelaça na garganta ardida, arranhada - de ácido ou de ocasião, tanto faz -, ela sobe, desce, permeia e cospe um pouco, alguns retalhos para lá e para cá.

Ela não é específica, não exatamente, mas toca todos os cantos, todas as dores, inseguranças, todos os costumes impostos quando papai e mamãe ainda eram absolutamente absolutos, o mundo sem escalas, apenas preto e branco. Hoje em dia é tudo colorido, então a pergunta arde. Arde e implode com aquele ar de 'grande novidade', nenhuma grande descoberta que não a de que, sim, você ainda é capaz de voltar a este ponto, sempre, ele está aqui só esperando a chance.

A música, ah, ela perde o gosto e só serve para ensurdecer. Pedaço por pedaço, refrão, grite palavras, etc.

A culpa, vem, vai, volta, fica, fica, fica. Sempre uma nova culpa e, mesmo quando jogada em outros, é só da boca pra fora - você foi muito bem educada, sim, e aqui está a prova, afinal. A culpa é sua, senão de quem lhe importa, nunca de quem lhe apetece - a culpa é sua.

Você pensou "esse ano não, não nesta época, não não não", mas a verdade é que você tem mais um marco e o passará com o mesmo sentimento dos anos anteriores, aquela coisa de derrota e toda a amargura que te é própria quando em junho.

Parabéns.