Querido vovô,
Você gosta de cartas. Sempre recebo cartas suas em meu aniversário, como se fosse incapaz de me falar as palavras, então resolvesse escrevê-las. Entendo, até certo ponto. Mas depois, bem, dói. E você não sabe disso, então dói um pouco mais. Veja bem, eu não gostaria que você soubesse, porque, parcialmente, a culpa é sua.
Hospital. Macas, cirurgia, coração, veias, colesterol, pressão, rins, remédios (aqueles que você nunca tomou), comida, sal, guaraná.
De certa maneira, você me assombra. De certa maneira, você se mata. E é tudo meio igual (fica tudo meio igual, depois de um tempo). Sabia, um milhar de coisas que eu nunca vou te contar? Todas as pequenas falhas, vovô. E aquela vez que passei o dia dos pais com você, lembra? Me arrependo. Me arrependo porque nós nos sacrificamos por você, sofremos por você, fizemos tudo – tudo, vovô -, e você não se deu o trabalho de fazer o mínimo. O maldito mínimo.
Não foi sua culpa. Nunca é, certo? Quero dizer, tudo. Nada, tudo, você. Resolvi te escrever uma carta porque assim, quem sabe, você me ouça. Só essa vez.
Com amor,
sua neta.
sua neta.
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